Capítulo 1: Princesa Trindade
Transicionar eh escrever uma ficção bem sucedida.
Quero curar e ser curadora de qualquer exposição/mostra/experiência/performance que Princesa Trindade se atreva a fazer/criar/pensar.
Eu sou artista// travesti// escritora// curadora// poeta// comunicadora// podcaster// intelectual// feminina// leitora// educadora// fazedora// atriz// modelo// amada// ficcionista// faladora// pesquisadora// socióloga// antropóloga// filha// gente// cientista// política// falsa// fake… Quero {fingir} fazer tudo isso até ser.
Poderia ouvir a Princesa por horas a fio falando sobre tudo que ela quisesse comunicar, ela, na verdade, é uma das pessoas mais comunicativas que eu conheci. Nunca antes tinha encontrado alguém tão disposto a falar, ela senta, pergunta como está, pede um litrão e fala, fala, fala… por horas ininterruptas se o interlocutor deixar. No Bar do peixe, dentro da minha casa, ela deixa qualquer pessoa à vontade. Apresenta projetos engavetados, conta a história da sua transição, escuta a dos outros. Fala de fé, da avó, do namorado e é como se tivéssemos parado no tempo, ali, no meio da rua, enquanto o Bar do peixe toca uma playlist ininterrupta de Madonna no Youtube. Juntei quatro coisas que eu gosto muito: Madonna, mesa de bar, conversa e Princesa. Foi pelo Instagram o primeiro contato, um vídeo onde Princesa Trindade falava, falava e falava sobre festas eletrônicas da cidade. Nesse vídeo ela não nada além de louca, eu achei graça do que ela falava, de como ela falava e pensei que pessoa gênia. Ela fazia da sua loucura um método. Passei a pesquisar Princesa, procurei outros vídeos que ela produzia, assisti às edições do Programa da Princesa, ouvia os episódios do podcast de mesmo nome e eu não deixava de achar, ela é mesmo louca. Foi então quando li o que ela escrevia que eu não consegui mais esconder o sentimento bonito que estava em mim.
“Transicionar eh escrever uma ficção bem sucedida.” Texto publicado no Instagram da Princesa, 2023.
Todos os anos que passei a ler, pesquisar, interessar pelas coisas escritas, nunca, nada fez tanto sentido. Transicionar é realmente isso. Quando li pela primeira vez, eu senti, lembrei do que havia feito por sete anos após o primeiro dia do “eu”. No mesmo bar, na mesma noite, ela me entregou os seus originais. Princesa tinha mais, mais palavras, mais loucura, mais método. Sempre tive medo de deixar as minhas loucuras, medos, fantasias, inseguranças, fraquezas, doenças, confusões mentais se tornarem parte do que eu escrevia. Depois de entender o – método Princesa Trindade –, eu decidi, vou ser também louca, vou ser neurótica e tudo que havia escrito antes, parecia vazio, parecia incompleto. A auto-ficção que eu havia escrito continha apenas falsidade. Eu era falsa e isso refletia apenas a minha personalidade e não o meu método.
Uma teoria cunhada pela autora, a qual reflete a escrita de si, do sujo, do podre como forma de transferência da dor que se sente. A escrita ficcional de uma sujeita que serve para doer não mais no próprio corpo, mas em quem a faz doer, sentir. Princesa antes, essa Princesa escrevingadora, cumpriu seu papel, ao mesmo tempo que, a punho, se vingou, escrevendo lixo, nojo, resto e feiura no lugar de carta, crônica, poema e ensaio. Ela tornou a beleza diferente do que se escreve e ainda assim, se vingou. No conto um pedaço de carne, ela propõe essa re-definição do que é belo nas letras. Queria poder ou achar que posso compartilhar o completo com quem lê esse ensaio em questão, mas me resguardo a importância que me dou em saber que fui uma das poucas na qual Princesa confiou tamanha grandeza.
“São duas horas da tarde e Mateus acorda de um pesadelo. No sonho, ele estava andando num lugar sombrio e gelado. De repente, um foco de luz vermelha. Uma travesti sentada em um trono iluminado pelo feixe. Olhava fixamente para ele. Parecia estar observando seus movimentos, sua respiração, e de alguma forma misteriosa, os seus pensamentos [...] Ele passa em frente ao espelho novamente e algo chama a atenção em seu corpo sem camisa. Logo abaixo do seu umbigo, havia um pedaço de carne faltando. Então olha para o rosto, para o espaço onde faltava outro pedaço. O primeiro pedaço que caiu. Vê que mais carne caiu e agora sente dor. Dor pela falta da sua carne [...] São quatro da tarde e Mateus está com um buraco do tamanho do seu celular na pele de seu peito. As outras áreas do seu corpo estão sendo afetadas gradativamente. Muito rápido. Ele luta contra a ideia. Ele tenta pensar em outra coisa, mas não consegue. As palavras de Gilda se repetem em sua cabeça: Quero que você me veja toda vez que olhar no espelho.” Conto Pedaço de carne de Princesa Trindade, sem ano.
– Saiu de um encontro que tive, Mateus é real.
Ela também era, imagina, escrever sujeira para fazer doer no outro. Abrir na pele da pessoa um corte fundo e enfiar o dedo até a pessoa não aguentar de tanto gritar e desmaiar. Acredito que seja esse o resultado técnico da Escrevingança. Fazer doer, corroer a carne e deixar os pedaços que sobram caírem, um por um.
No mesmo ano em que Princesa escreveu que escrever ficção e transicionar estão imbricados, ela também escreveu: Princesa, eu te amo!
E eu amo a loucura dela, invejo o desprendimento da falsa sociabilidade, admiro a escrita, o design, a pesquisa, a amabilidade, o fato de ela ter suas melhores ideias em cima de uma moto, escrevê-las, arquivar todos os projetos, a insegurança, voltar e fazer de novo, convidar para um litrão, pensar projetos futuros, fazer uma entrevista, engavetar. Tudo bem Princesa, eu te amo e te escrevo com ainda mais afinco, quero também te ler. Se você quiser me fazer de “diário fake”, eu deixo. Me conte tudo, eu vou escutar tudinho por horas a fio, sou sua espectadora, sou sua fã e acredito na intelectualidade travesti, de fé, de dor, de vingança, de loucura e de sujeira. Escreva e escreva, vamos publicar, curar, montar, pesquisar e expor nossos lixos.
“Afinal, é sábado e o único meio de continuar amanhã é gastar tudo hoje.”, Pedaço de carne de Princesa Trindade, a emergência de se viver, de se sentir tudo de uma vez em uma noite, sem repetições, uma gozada. Um texto que é uma ode à noite travesti de Fortaleza. sem esquinas, sem sexo pago, os dois cenários são, a infame praça dos leões e as sufocantes quatro paredes de um quarto. Duas sonoridades, as batidas arrepiadas de uma música de funk e os silêncios de uma relação de sigilo. Um homem, uma travesti e um final de festa, o que poderia acontecer? “você sabe que eu sou travesti?”, uma pergunta-denúncia, e se ele não soubesse? Nós, travestis, façamos essa pergunta sempre dando um passo para trás, proteção. Ele sabe, eles sabem, sempre sabem. eles gostam, na verdade, mas será que é do sexo ou eles realmente gostam da gente? Princesa nos instiga em seu texto a imaginar o travequeiro para além de seu fetiche, a escrita da autora transforma uma experiência real em uma fábula fantástica, travestis orixás protetoras retornam do além-vida para nos abraçar com seus mantos de proteção. Elas voltam para tornar as travestis que aqui vivem leoas que devoram seus machos,
Ó incomparável Senhora das travestis,
Rainha das noites,
Advogada dos pecadores,
refúgio e consolação dos travequeiros
desesperados,
Virgem Santíssima,
cheia de poder e de luxúria,
lançai sobre eles um olhar favorável,
para que eles sejam comidos por vós,
em todas as necessidades em que os acharmos.


