git commit –-m "feat: postar uma crônica sobre IA no Substack"
O resumo dos dias tem sido assim: iniciei um curso longo de IA Generativa, eu, uma iniciante em qualquer assunto que envolva tecnologia ou que fuja à normalidade de simplesmente fazer uso. A descrição do curso era simples: não era necessário que tivesse alguma experiência com os temas abordados. Antes de de fato iniciar, ouvi que os trabalhos que envolviam essa área eram o futuro; ouvia também que profissionais de quaisquer outras áreas que fossem estudados acerca do assunto passariam na frente. A tensão de estudar algo novo e a esperança de buscar novos caminhos fizeram meus olhos brilharem. Na primeira aula, as frases imprimidas nas paredes da escola me chamaram muita atenção, eram elas: “Eu tenho duas opções: assistir a tudo isso acontecendo ou fazer parte disso", o crédito dessa primeira é dado ao homem mais rico do mundo, Elon Musk. Outra que me chamou a atenção foi: “A frase mais perigosa que existe é: sempre fizemos assim". Comecei, então, a ter que lidar com máquinas.
Não me acostumo quando preciso, antes de adentrar qualquer elevador, ter que apertar o andar e ainda confirmar em um painel numérico; a máquina automaticamente faz a seleção do elevador para mim; ou quando eu começo a tirar dúvidas com uma conta de WhatsApp e ela começa a responder às minhas mensagens de maneira muito próxima à comunicação humana — digo, parafraseando todas as minhas dúvidas pautadas e adicionando conclusões, interações, usando uma comunicação tão real que não me deixou perceber que eu estava lendo o trabalho de máquinas; o que me denunciou foi a rapidez das respostas longas. Respostas com mais de cinco linhas eram recebidas na mesma velocidade que as monossilábicas, em menos de um segundo. Isso me assustou; eu realmente pensei estar conversando com uma pessoa.
A IA tem deixado de me assustar; eu tenho procurado me otimizar em relação ao que de interessante ela pode fazer. Tenho feito, por exemplo, o uso de uma ferramenta que limpa perfeitamente os áudios das conversas de meu podcast em questão de segundos: assim que eu envio os arquivos, a ferramenta remove o fundo, aprimora a voz e transcreve as falas, identificando a minha e nomeando-a. Não é preciso eu escrever aqui o quanto de tempo eu, sozinha e com pouca expertise, demoraria para conseguir um resultado (inferior) ao entregue. Fui ainda a uma palestra onde uma pesquisadora britânica questionava os motivos de nós, artistas, termos tanto medo da Inteligência Artificial; ela então indicou o artigo do Governo Britânico: Why technology needs artists: 40 international perspectives. Não mudou muito o que a minha bolha acha das novas tecnologias. O governo de Trump anunciou recentemente que a inteligência Grok, do trilionário Musk — uma das menos filtradas do mercado —, vai fazer parte do chamado departamento de guerra.
Todo mundo usa a Inteligência Artificial: no Google, no YouTube, nos televisores, nos celulares; em tudo é possível que, de forma cruzada ou direta, a Inteligência Artificial tenha sido manipulada ou acionada. E esse acionamento é o que eu, esperançosamente, teria que lidar. O que eu vou falar? Como se comunica com uma máquina? As pessoas das minhas redes sociais têm produzido, com auxílio da IA, vídeos para viralizar; têm produzido fotos pessoais em estéticas de estúdios de design famosos; têm pedido para a máquina adicionar namorados em suas fotos baseando-se em seus estereótipos — eu fiz isso. O governo do Estado do Ceará, há não muito tempo, anunciou a instalação de um data center da chinesa TikTok por aqui, e muito se falou nos rios de água que seriam desviados das tubulações para abastecer esse centro de dados de uma empresa que hoje sofre pressão do Governo Americano para ser 50/50. Isso se tornou realidade. Essa informação foi checada com IA. Poupar horas de leitura e ainda poder proporcionar uma informação, não completa, mas verdadeira. Não sei se o acordo é de 50/50, mas a empresa chinesa ByteDance, proprietária da plataforma, possui atualmente 19,9% das operações, enquanto a Oracle, norte-americana, divide os 80,1% restantes com outras empresas internacionais. A última também é a responsável por gerenciar os dados dos usuários do país. E para nós, cearenses, que acordos irão sobrar? O governador Elmano diz que é indiscutível a massiva geração de empregos e a injeção de bilhões na economia do estado. Entendendo isso, pode ser que essa nova área em que eu estou inventando de me meter sirva para alguma coisa, certo?
Quando cheguei, logo me animei; fui a primeira e antes do horário. Minha mãe me convidou para me dar carona com o seu passe-card; pegaríamos o mesmo ônibus, passaríamos mais tempo juntas, eu teria só que chegar mais cedo todos os dias, mas não pagaria passagens, economizaria esses reais. A minha mãe também vai voltar a estudar e tenho animado ela em relação a isso. Ela nem mesmo pôde terminar o fundamental. Eu nasci antes. Fui recebida com um coffee-break — ou achei que havia sido. Havia um evento de abertura do Governo do Estado e pessoas se aglomeravam para comer. Bom, esse curso é oferecido pelo Governo, logo, deve ser mais uma abertura batida do serviço público para ter fotos para divulgação do programa, eu pensei. Não havia tomado café até aquele momento e o cheiro me ludibriou. Me meti na fila, peguei um prato, preenchi com poucos comes e exagerei nos bebes. Bebi rios de café para acordar. Todas as pessoas que eu via eram mais velhas, muito bem vestidas, de salto, terno, e pensei que o mercado estava se atualizando também para elas. Ao finalizar um dos copos que bebia, o rapaz da recepção, que havia me pedido para aguardar na área de convivência, procurou os meus ouvidos — que já estavam envolvidos com as falas das pessoas presentes — e me avisou que o professor já estava em sala e que eu podia adentrar, só fui. Peguei minha bolsa e entrei na sala chamada “Grace Hopper”, uma militar norte-americana, programadora e criadora da linguagem de programação Flow-Matic. Haviam poucas pessoas e nenhuma delas haviam se esbaldado com o bufê como eu tinha. Nem o professor, um jovem. Me envergonhei de cara pelo atraso causado por minha própria confusão. Sentei em uma ilha sozinha; os outros alunos estavam espalhados pelas outras ilhas, que se chamam assim por se tratar de uma linguagem mais corporativa e coletiva de trabalho. Depois tentei abstrair o sentimento de impostora que começava a me perturbar a mente; busquei outras distrações: os meninos. Os filmes hollywoodianos enraizaram um estereótipo que eu julgo ser menos nocivo a sociedade, os homens que trabalham ou se interessam por tecnologia tendem a ser feios, esquálidos e calvos. Mas nem tudo era ruim: o professor era um homem bonito, outros dois alunos também tinham uma postura, face e corpos interessantes de serem olhados. Depois que eu ouvi o que seria ali aprendido, eu baixei a cabeça. Não entendia nada, não era a minha área. Eu era a patinho feio da turma.
O professor dizia constantemente que alguém iria desistir; eu sentia que era para mim que ele falava. Mas depois ele falava que não era para desistir, que ia ficando mais fácil. Na segunda aula, o mais alto dos interessantes veio de regata, mostrando os braços tatuados, ótima escapada de consciência. Eu percebi que ele também se ocupava comigo; cruzamos muitos olhares e até sorrisos. Quando entrei na sala, olhei na tela do seu celular e vi uma conversa aberta no WhatsApp com o nome acompanhado de um coração. Focaria em observar o outro rapaz então, mais baixo, sem tatuagens, mais frígido. Ele não tinha os óculos que eu gostava do primeiro, mas não tinha namorada, nem esposa como o professor. Enfim, hora de estudar. Queria prestar atenção ao que estava sendo discutido em sala; o professor e os alunos debatiam e falavam em conceitos que eu não conhecia. Procurei então livros de programação, tutoriais na internet, ensinei meu algoritmo do TikTok a me mandar vídeos de programação para iniciantes. Como se faz isso? Simples: pesquise pelo tema que queira entender. Depois, com os resultados em mãos, selecione os vídeos com a estética que mais te agrada ou que chama a sua atenção. Depois, curta, no mínimo, cinco vídeos de que realmente gostou e salve-os. Se quiser comentar algo, melhor. Pronto.
git commit -m "feat: adiciona cadastro de usuário";
git commit -m "fix: corrige erro ao calcular total";
git commit -m "refactor: simplifica lógica de autenticação";
git commit -m "style: ajusta indentação";
git commit -m "docs: atualiza README";
git commit -m "chore: atualiza dependências".
A essa altura, o professor entendeu que eu não desistiria e também chegou gente nova. O menino para o qual entreguei sorrisos continua a sorrir de volta e eu estou começando a produzir automaticamente, mas teimo em querer entender a finalidade do que estou fazendo, digo, para que isso tudo? O que eu vou poder criar? Como eu vou chegar até lá? Eu quero brincar com as máquinas, mas também quero entender elas. O professor, na última aula, falou sobre variáveis e disse que uma variável não é igual ao que ela armazena, mas ainda assim se torna aquilo. Mesmo que na linguagem da programação o sinal "=" seja usado, dois nunca é igual a dois.



Robôs sonham com ovelhas elétricas? Talvez você posso dizer isso para nós, se precisar tenho uma coleção de livros maravilhosos de sci-fi que demonstram como a IA pode acabar com a humanidade rsrsrs.
Mas boa sorte na jornada, será maravilhoso ter uma amiga entendida de IA ❤️