Terceiro Abril
“Não gosto de ler poesia”, escrevi no último Abril. Neste Abril, li João Cabral de Melo Neto:
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
E assim entendi que ando cultivando o meu próprio deserto. Não com felicidade, nunca estive tão solitária. Sinto o meu dia pesar, passar mais devagar; Ler, cozinhar, dormir, conversar, nunca antes foi tão difícil. Compreendo a preocupação de minha mãe e irmã, me tornei uma pessoa que elas temem perder. Me perder virou uma realidade e enxergo nos olhos o quanto se preocupam com o meu bem. Eu não penso e nunca pensei em não estar mais com elas, choro sempre que imagino acordar (ou não acordar) e não poder ouvir o “bom dia”. Me arrependo da adolescência e me arrependo por ter sido tão silenciosa — na minha. Olho agora o meu passado e sinto saudade de quando eu não tinha nada além delas, quando tinha a nossa casa no meio do mato (que eu costumava odiar), quando tinha a casa de meus avós a poucos minutos de carreira.
Eu reclamei muito na minha vida, e hoje reclamo do quanto eu não aproveitei o tempo em que eu escolhia não ser feliz; Fosse pelos hormônios, ou por birra juvenil, eu sinto todos os dias uma saudade da época em que minha mãe não me olhava com preocupação. Eu sei que ela não me quer triste, mas será a tristeza quem vai me ensinar e talvez ela se sinta frustrada pois sabe que o não conseguiu me ensinar. Sua mãe passou pela mesma crise de tristeza e talvez um dia ela vai passar também, a minha chegou antes e tenho que lidar com isso.
Não adianta muito datar as coisas ou os sentimentos, mas tem sido dificultoso escolher estar sozinha. Não responder mensagens, não aceitar convites, não ver pessoas. Eu tenho períodos em que me afundo em melancolia, é normal. Depois eu costumo voltar e tudo fica como antes. Só que dessa vez está sendo diferente, eu não quero que as coisas, as pessoas, as relações ou quaisquer outras coisas fiquem como antes. Eu quero acabar com o que vem me ferindo e eu não quero sentir culpa por isso.
Escolhi não ler o que eu escrevi em textos anteriores de aniversário (coisa que me percebi fazendo/criando), porque eu sabia que certamente em todas as passagens eu estaria reclamando de alguma coisa, eu tenho uma obsessão doentia por reclamar, — de achar cabelo em ovo. Talvez seja culpa da sobriedade em que me encontro e agora o texto possa vir a parecer meio confuso; Parei de beber com a frequência costumeira, e isso parece que piorou tudo. Passei a me olhar no espelho a me enxergar novamente, parei de comer, emagreci e coisas estranhas voltaram a caminhar na minha cabeça. Eu choro sempre que vejo algo que não gosto no meu reflexo, eu choro porque eu sei que é mentira, que é ilusão, que é uma fase (novamente). A minha frustração com a vida tem se intensificado e parece que eu não posso (desta vez) controlar. Eu fiz muita coisa errada e me arrependo amargamente de ter cultivado só agora esse deserto que me encontro. Olho para o mundo e espero chuva, sinto um calor desgraçado de manhã, de tarde e de noite. Não sinto orgulho nenhum de mim, ou do que fiz ou do que me tornei. Sinto que fracassei e continuo a fracassar constantemente. Eu não quero pena, eu não quero compaixão, eu só quero falar sobre a fase.
Não consigo pensar, escrever ou pronunciar o que passei desde novembro passado sem chorar. Essa foi a fase que mais me senti sozinha. Eu olhava para a minha sombra e só via um reflexo escuro, sem vida. Olhava depois para o céu e não via nada. Fechava os olhos e sentia um vento forte seguido de um arrepio. Os caminhos se tornaram tão longos e o pior aconteceu, eu tive tempo de pensar e lembrei de tudo. Cada detalhe veio como flecha na mente e eu não queria, não queria que ela chegasse até o meu coração. Vi. Enxerguei. Chorei. Chorei no uber, no ônibus, na rua, no banheiro, na cama. Esperei que todos tomassem banho para que eu pudesse sentir uma água que não fosse a minha escorrer. E não estou feliz, minha mãe sabe disso e todos os dias me pergunta se estou me sentindo bem. Ela até conversa com as colegas de trabalho sobre a minha tristeza, diz que não sabe o que fazer, que eu não converso com ela. Eu não quero que ela saiba, não quero que ela entenda, só eu sei como é doloroso ver ela sofrer e eu não quero que uma fase (ou mais uma) acabe ou enfraqueça a felicidade recente que ela tem sentido.
Eu a vejo viver com quem ela ama, sendo amada de volta, rodeada de ninguém além de quem realmente se importa com a existência dela. Ela se encontra rodeada de pessoas que a escutam. Ela é minha mãe, eu não deveria ter que falar tudo que sinto para ela. Eu já a vi chorar tantas vezes, não quero eu ser a responsável por isso, então, respondo que sim, estou muito bem, comi muito bem hoje, dormi melhor ainda, escrevi também, me sinto revigorada. Ela não acredita, não sabe que escolhi não mais estar com certas pessoas, foge de perguntas dos vizinhos quando questionada sobre a minha ausência; Percebe que de fato eu me ausentei e muitas vezes acordo com os olhos um pouco mais encolhidos, inchados, avermelhados.
Ela escolhe depois surpreender a todos com a sua presença, chega cedo, acorda a todas, beija muito os rostos, meu, de sua filha mais nova e de sua mãe. Promete a melhor comida que a gente já comeu e faz elas sorrirem tão alto que, por alguns segundos, eu volto para um pedaço de felicidade real. Ainda assim, depois, com calma, volto a reclamar de coisas. Ainda assim, depois, com calma, volto a me sentir sozinha. Ainda assim, depois, com calma, eu volto a cultivar o meu deserto e a solidão amplia o espaço e a distância entre a gente. Me culpo ainda mais, olho ainda mais o espelho, encontro mais defeitos, choro ainda mais, durmo ainda menos, penso de olhos abertos no escuro, vejo imagens mentirosas, criações minhas, lembro de cenas que me machucam, volto a chorar, paro, durmo, acordo, leio muitas páginas, não quero mais ler, tomo muito café, lavo os cabelos, pinto as unhas e mudo constantemente as cores, não escrevo, penso mais que escrevo.
Tenho um caderno onde comecei a escrever poesias e abandonei, abandonei como tudo e todos na minha vida. Sinto falta de tudo, da atenção, da possibilidade de ter, dos ouvidos, das risadas, das histórias, mas logo lembro da humilhação, das piadas, da exposição, da ingratidão, do desprezo e passo a desprezar também. Não tenho medo de estar sozinha, digo, em pensamento à minha mãe: vai ficar tudo bem, a tristeza vai passar, a solidão vai passar, eu não vou voltar a ser como eu era antes, eu não quero ser novamente aquela pessoa, eu não quero mais fingir, não quero mais estar rodeada de pessoas que não entendem o mundo, não quero mais ter que pedir por amor, por amizade, por paixão. Isso, essa fase, mãe, é normal. Já aconteceu com você, agora está acontecendo comigo e ainda vai acontecer com a sua filha mais nova. A tristeza e a solidão vão um dia atacar a existência dela, espero que ela faça diferente da gente. Tomara que ela fale, reze, acredite, tenha fé, que procure o nosso abraço e não sinta medo; que ao invés de fechar os olhos para sentir o vento forte, ela o sinta com eles abertos para enxergar o deserto que ela cultivou, sem vergonha de sentir.


